O MEU PRIMEIRO CONTACTO - MEU TESTEMUNHO





Já tinha ouvido falar em diabetes muito antes de me ser diagnosticado, mas como adolescente que era, com apenas 15 anos na altura, nunca tinha parado para pensar a pormenor ou pesquisar sobre o assunto, pelo facto desta doença nunca ter tocado algum familiar próximo ou algum amigo na escola. 
No local onde vivia, só conhecia duas senhoras, já com a sua idade, que tinham Diabetes. Recordo-me, de elas terem desejos em comer algo doce e diziam que não podiam no momento porque estavam com os "diabetes altos" e guardavam para comer depois. Uma delas, era a irmã de minha avó materna, mas esta já se encontrava cega e acamada, derivado à agravante da doença. 
Então, de acordo com a experiência de vida que tinha, assimilei o problema apenas à ideia do consumo excessivo de açúcar e que só surgia em pessoas com mais idade.
No verão de 2004, tinha-me inscrito no OTL-J (ocupação de tempos livres para jovens) e naquele ano, calhou, eu ir trabalhar para um Fórum de Informática onde lá havia ar condicionado sempre em funcionamento. Com a mudança de temperatura do interior para o exterior, apanhei uma amigdalite.
Fui ao Centro de Saúde para ser tratada e me receitaram apenas comprimidos e pastilhas. Os comprimidos eram grandes, cheguei ao ponto de os triturar e misturar com Kima de Maracujá, e até que resultou bem nos primeiros 3 dias, mas os restantes comprimidos já não fui capaz de os tomar, porque sentia-me melhor e era teimosa, o mundo era meu e sabia o que estava a fazer (mentalidade de adolescente).
Vi-me mal com esta minha atitude, porque tive uma recaída daquelas, "uiiii", por não ter finalizado a medicação. Voltei ao Centro de Saúde e me receitaram desta vez Penadur que consistia em 3 injeções na nádega (toma no 1º e 2º dia, descansa no 3º dia e no 4º dia a última das 3. 
A partir dali, todos os sintomas surgiram sem me aperceber do que se tratava.
Sendo verão, tinha muita sede e achei normal devido ao calor, mas com a ingestão de tanta água ia muitas vezes  à casa de banho, tive desfoques de visão, tinha muitas cãibras na barriga das pernas, emagreci 8 kg, sentia-me muito cansada ao fazer um pequeno percurso a pé, mas de outra forma, sentia-me feliz porque estava super elegante sem ter feito dieta alguma e tinha uma fome constante. Não era gorducha, mas com peso a menos, quem não gosta, não é?
Minha Mãe, estava de férias em pleno mês de Setembro e apercebeu-se que se estava a passar algo de anormal comigo. Deparou-se que eu tinha bebido 3 garrafões de 5 litros sozinha em 3 dias e que estava muito magra com os ossos nas costas bem salientes. Ao regressar das suas férias ao seu local de trabalho, no dia 1 de Outubro, comentou com as colegas de Serviço do Centro de Saúde, o comportamento estranho que eu estava a ter.
Os sintomas descritos por ela correspondiam na perfeição com a Diabetes, o que a sugeriram, eu ir no próprio dia fazer a "picagem no dedo".
Minha mãe liga-me de manhã para casa, para ir ao seu encontro e eu tinha acabado de tomar o pequeno-almoço. Naquele dia, não foi o habitual pão com queijo que comia pela manhã,mas sim uma chávena de café com leite com 2 colheres de açúcar e uma fatia de bolo de chocolate que a minha mãe tinha experimentado fazer uns dias antes.
Era sexta-feira, frequentava o 11º ano e só tinha aulas de tarde, então, meia hora após o telefonema tinha chegado ao centro de saúde pelo meu próprio pé.
Ao chegar lá, mediram a glicemia e a máquina regista HI.
A enfermeira sendo amiga da minha mãe começa a chorar, olho para o lado e vejo a minha mãe a chorar também. Deduzi logo que era grave. A enfermeira apenas disse: "Ela tem diabetes!" e eu respondi prontamente: "Eu? Diabetes? Isso só dá em pessoas velhas! Não pode ser!”. Nem era uma miúda de comer muitos doces, mas "o fruto proibido passou a ser o mais apetecido".
O meu mundo caiu sem me aperceber ao certo o que me aguardava. Estava de rastos, mais pela minha mãe por estar naquele estado porque a mim nada me doía.
Encaminharam-me para o Hospital de Ponta Delgada, que na qual fui internada por 3 dias para a aprendizagem de aplicação de insulina, picagem no dedo, assimilar valores, registos diários, alimentação. Foi-me diagnosticado Diabetes Tipo 1.
Ela se desencadeou com a amigdalite, sendo algo genético e não hereditário.
Meu Pai, no primeiro dia nem me queria ir visitar, nem sabia o que me dizer, mas o seu silêncio disse tudo. Ele estava triste e abalado com a condição que eu teria que levar para o resto da minha vida mas sempre solidário comigo.
A Diabetes não foi bem-vinda, a Diabetes não foi bem aceite, mas não tive outra alternativa, tinha que melhorar para sair o mais rápido possível daquele hospital. Por outro lado, no hospital somos supervisionados, sentia-me segura, porque o mundo cá fora era demasiado grande para ser enfrentado sozinha mas tinha que ser muito forte porque o pior estava para vir.
Conhecer o nosso próprio corpo como reage a determinados alimentos, não é algo que se aprende num dia, numa semana, num mês ou num ano. O nosso corpo está constantemente a ser alterado.
Fiquei com medo do que me podia vir a surgir se não cuidasse bem de mim.
Lembro-me do primeiro dia que saí do hospital e os meus pais levaram me ao Hipermercado para comprar coisas saudáveis, sem açúcar. 
Na altura era muito raro haver produtos sem açúcar, ou uma determinada secção healthy comparado com os dias de hoje em que existe imensa variedade. Recordo-me de ir a procura de cereais integrais para substituir pelo pão que comia de manhã, de ir em busca de iogurtes sem adição de açúcar e em todo o produto que tocava, tinha uma elevada percentagem de açúcar. Só lia nos rótulos açúcar, açúcar, açúcar e mais açúcar até ao ponto do meu pai me arrancar aos choros do corredor. Foi muito difícil assimilar isto tudo no início.
Os meus pais sempre me apoiaram, sempre estiveram comigo e a Diabetes não passou a ser apenas minha, mas deles também porque a alimentação alterou-se lá em casa. Também cortei de uma vez o açúcar no café sem passar pelo adoçante e comecei a comer saladas que era algo inexistente no meu prato.
A minha mãe só dizia, “porque é que isso não me calhou a mim?”, eu apenas chorava porque a realidade era isto, estava de luto e revoltada com a vida. Uma tristeza profunda. 
Considerei até hoje 2004, o pior ano da minha existência por ter perdido a minha avó materna e por ter descoberto a “maldita diabetes”.
Quem está por fora não tem a noção, nem a ideia do que é a Diabetes em si. Todos nós apenas temos pequenas noções das doenças que existem em nosso redor, mas nunca na sua complexidade, a não ser médicos especialistas e aquelas pessoas que passam mesmo por elas.  
É pensar que existe doenças piores e que vai ficar tudo bem, mas não tinha a ideia do quão trabalhoso seria controlar 24 horas por dia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

AS 4 FASES DA DIABETES